Cativeiro no Senhor por T. Austin-Sparks

Ninguém pode falhar em reconhecer o tremendo enriquecimento do ministério contido nas chamadas “Epístolas de Prisão”

11/02/2018 - 18:21 hs
Foto: (reprodução)
Cativeiro no Senhor  por T. Austin-Sparks
Cativeiro no Senhor por T. Austin-Sparks

Leia: Efésios 3:1; 2 Tm 2:9 e 1:8

De forma muito clara, vemos na vida e experiência do Apóstolo Paulo uma encarnação da história da Igreja nesta era. Esse certamente parece ser um princípio da economia Divina, de que a revelação confiada seja gravada no próprio ser e na história daquele a quem foi dada, ao ponto de ser possível dizer: “Eu sou um sinal”. Tomando esse fragmento diante de nós, vemos que no final de sua vida, Paulo sofreu um processo de estreitamento e limitação. Por um lado, vemos a “grande apostasia”, e por outro, a redução do ministério geral para o específico, como foi o caso do seu testemunho. Isso é precisamente o que foi predito como a condição geral no “tempo do fim”, e não é de pouca importância que isto esteja referido de forma especial nas afirmações proféticas do final de sua carta a Timóteo. Essa frase “O Prisioneiro do Senhor” é profética em seu significado e maravilhosamente explica o caminho final na soberania do Senhor.

Então, o que temos é:

1. O instrumento do testemunho do Senhor em um lugar de limitação pela vontade de Deus.

À medida que lemos os registos dos incidentes que conduziram Paulo à Roma como um prisioneiro, em especial observando as palavras de Agripa: “Este homem bem podia ser solto, se não tivesse apelado para César” [At 26:32], não estamos longe de sentir que houve erros e acidentes, sem os quais poderiam ter acontecido situações mais propícias, e o ministério do Apóstolo poderia ter se estendido amplamente. Devem ter ocorrido momentos de estresse, e Paulo pode ter sido tentado a imaginar que foi impulsivo em apelar para o Imperador. Mas, seguindo em frente, e recebendo luz do Senhor de tempos em tempos, se tornou claro para ele que, independente daquilo tudo ter sido construído humanamente, tudo estava sob o governo soberano do Senhor. Ele estava na prisão, mas não era prisioneiro do Imperador, e sim um prisioneiro do Senhor.

Talvez Paulo não tenha aceitado isso de uma vez. Possivelmente não percebeu como tudo iria funcionar. Um julgamento mais ou menos rápido poderia ser sua expectativa. Uma esperança de um ministério entre os amados santos parece ausente em suas cartas (houve provavelmente um curto período de liberdade da primeira prisão). Com o tempo, entretanto, ele aceitou plenamente o que estava ficando cada vez mais claro como o caminho do Senhor, e começou a acreditar que o que estava acontecendo era pelos interesses do Corpo de Cristo. Por isso, vemos que quando chega o tempo do povo de Deus ser trazido face a face com as coisas supremas da revelação de Jesus Cristo, com assuntos acima da salvação pessoal, que se relacionam com o propósito de Deus muito

acima da salvação, encontramos uma limitação, um estreitamento. Muita atividade já ocorreu, e tudo estava de acordo para trazer as coisas a uma certa posição, e agora parece que elas cessam de prosseguir, e algo mais intensivo é necessário.

Isso é o que representa o testemunho em sua plenitude e em sua mais próxima aproximação do supremo propósito de Deus. Deve haver uma poda de muitas coisas que eram boas, necessárias e que vieram de Deus de uma forma preparatória, mas que devem ser descontinuadas diante daquilo que é supremo. O cativeiro não é uma verdade oculta, tampouco uma doutrina amplamente aceita. Ele é gravado na fibra da pessoa pela experiência que segue a revelação, e a revelação é interpretada pela experiência. Não é a defesa de uma interpretação adotada: é a verdadeira vida dos instrumentos usados por Deus, e o instrumento se torna aquela revelação que está no seu interior. Não é uma questão de querer ou não querer ser alguma coisa, mas é o fato de não poder ser diferente, é ser um prisioneiro, é saber que foi a soberania de Deus que fez isto.

2. A importância e o valor de ver e aceitar as coisas na luz de Deus.

Isso se aplica tanto a Paulo como àqueles que foram trazidos a um contato com ele. O fato do apóstolo aceitar a soberana ordenação de Deus de aprisiona-lo gerou um aumento de iluminação, que acarretou em uma emancipação espiritual.

Ninguém pode falhar em reconhecer o tremendo enriquecimento do ministério contido nas chamadas “Epístolas de Prisão”. Se ele tivesse sido impaciente, melindroso, rebelde, ou até amargo, não haveria um céu aberto, e o espírito de controvérsia com o Senhor teria fechado e trancado as portas para o mais completo esclarecimento e revelação das verdades Divinas.

Quando tudo foi aceito de acordo com o propósito de Deus, então os “lugares celestiais” se tornaram a vastidão eterna de sua caminhada, e os grilhões terrenos cederam lugar à liberdade celestial. Isso deve acontecer com cada instrumento separado para aquilo que se relaciona aos mais elevados interesses do testemunho do Senhor. Se lermos certas passagens em suas cartas, onde encontramos o registro do seu aprisionamento, veremos que impacta não só a vida de Paulo, mas também a de outros. Veja os textos a seguir:

“Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu” (2 Tm 1:8).

“Por dois anos, permaneceu Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia todos que o procuravam... ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (Atos 28:30,31).

“Conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo, porque, muitas vezes, me deu ânimo e nunca se envergonhou das minhas algemas; antes, tendo ele chegado a Roma, me procurou solicitamente até me encontrar” (2 Tm 1:16,17).

Certamente o efeito dessas passagens é que ocorreu uma apreensão Divina e não meramente humana da posição de Paulo. Uma mentalidade humana teria produzido uma atmosfera de dúvida, suspeita, questionamento, e haveriam elementos de falsa imputação. Considerando linhas naturais, associar-se com um prisioneiro seria se colocar em posição de suspeita e preconceito. Dúvidas eram amplamente vinculadas em relação ao servo do Senhor, e até mesmo entre o povo do Senhor haviam pessoas que não estavam seguras em relação a ele. Mas o Senhor estava aprisionando um canal vital de revelação. Para aqueles que estavam em real necessidade espiritual - e que deveriam permanecer em uma viva relação com o pleno testemunho de identificação com Cristo em Sua morte e ressurreição, seguindo em direção à uma união no trono com Ele, poder sobre “Principados, potestades”, e a um ministério “nas eras que viriam” - era necessário colocar de lado todas as considerações pessoais, humanas e diplomáticas, se posicionando ao lado desse instrumento de Deus colocado em honorável aprisionamento. Para a possuir aquilo que é dado ao vaso, é necessário aproximar-se do local onde esse vaso se encontra, sem considerar sua própria reputação, influência ou popularidade.

É nesse caminho que o Senhor peneira Seu povo e descobre quem está realmente pleno para Ele mesmo e Seu testemunho, e quem está agindo em qualquer medida por outras considerações e interesses. O instrumento nesta posição de rejeição popular é um dos meios do Senhor para sondar, e então Ele suprirá a necessidade.

A outra verdade que permanece então, é que:

3. Vergonha, reprovação e limitação são frequentemente caminhos de Deus para enriquecimento de todo o Corpo de Cristo.

Sempre foi assim. A aproximação da plenitude da revelação sempre foi acompanhada por um relativo custo. Cada instrumento do testemunho tem sido colocado sob suspeita e reprovação em uma medida relacionada ao grau do seu valor para o Senhor, e isso significa que, humanamente, eles foram limitados em sua extensão. Muitos se retiraram, caíram, se mantiveram à distância, duvidaram, temeram e questionaram. Assim como Paulo podia dizer: “minhas tribulações por vós, pois nisso está a vossa glória” (Ef 3:13), ou “o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios” (Ef 3:1), assim também a medida da limitação no Senhor é a medida do enriquecimento do povo do Senhor. Maior a revelação, menos os que a compreendem, ou maior número ainda é daqueles que se mantém à distância. Revelação é dada apenas por meio de sofrimento e limitação, e ter isso experimentalmente significa participar

do custo de alguma forma. Mas esse é o caminho de Deus para assegurar para Ele mesmo uma sementeira.

Uma sementeira é algo muito intensivo. Lá as coisas são reduzidas à dimensões muito limitadas. Não é uma demonstração extensiva, mas as coisas são consideradas primeiramente à luz da semente. Ali, o sentido real das coisas não é sempre percebido, mas é possível viajar pelo mundo e encontrar muitos jardins que são a expressão daquela sementeira intensiva e restrita. Se já houve alguma sementeira, essa foi a prisão de Paulo em Roma.

Tudo isso pode ser aplicado a vidas individuais em relação ao testemunho do Senhor. Pode ocorrer com frequência um desgaste contra a limitação, confinamento, e um anseio inquieto em busca do que poderíamos chamar de algo mais amplo e menos restrito. Se o Senhor desejou nos colocar onde estamos, nossa aceitação pela fé vai provar que isso se tornará muito maior do que qualquer mente humana poderia julgar. Fico imaginando se Paulo tinha ideia que sua prisão significaria sua contínua expansão de valor para o Senhor Jesus através de novecentos anos... O que se aplica a indivíduos também se aplica a grupos corporativos, assembleias, grupos de povo do Senhor espalhados pela terra, mas em unidade na sua comunhão em relação ao testemunho pleno do Senhor. Agradou graciosamente ao Senhor derrubar o aspecto meramente humano das paredes da prisão, e demonstrar que, longe de ser limitado por homens e circunstâncias, aquele era um aprisionamento no Senhor, e isso significa que todas as eras e esferas são iniciadas por meio daquela prisão.

Extraído da revista “Em direção ao Alvo” de Jan-Fev 1980, Vol.9-1.

Origem:"Captivity In The Lord"